Lopetegui: a perversão de entregar o comando da consola aos jogadores
Esbracejam, berram, amuam e tem apoteoses muito privadas de felicidade ou raiva. Calcorreiam a linha lateral, desgastando a cal e à procura de se fazerem ouvir. Em vão. É a extensão inaudível, em dias de jogo, do trabalho silencioso realizado no campo de treinos durante a semana. Que Lopetegui abriu agora a uma publicação espanhola, levantando um pouco o véu da postura e metodologia que tanto intrigou os media portugueses durante a pré-temporada. Começou com uma frase forte, que ainda é hoje é ordem nas suas conferências de imprensa: "Queremos ser protagonistas". Para isso, entregou a equipa a jogadores sedentos do mesmo protagonismo que lhes havia faltado na temporada passada, como Óliver, Tello ou Casemiro.A sala das máquinas mental do atleta estava alimentada, mas era agora necessário um plano que a tornasse eficiente a longo prazo. Chegava a revolução do 'jogar' de Lopetegui, a osmose quase perfeita - que agora começa a descolar do rótulo de utópica - entre teoria e prática. Aquilo que é a definição de uma equipa de topo, que "não diferencia processos ofensivos de defensivos", prometendo catapultar este FC Porto para aquele limbo extremamente desejado, mas que todos julgam impossível: a ausência de desequilíbrios próprios, uma equipa homogénea à procura de minimizar o impacto das transições no desfecho de uma partida. A chave é a relação com a bola, "saber o que fazer com a sua posse para que não se vire contra nós". Para que isso possa acontecer, o maior aliado do jogador é uma característica que, infelizmente, não desfruta da valorização oferecida a outras. A inteligência, exercitada pela repetição mas, e sobretudo, por uma capacidade decisiva na "descoberta espontânea" daquilo que o singular pode oferecer quando enquadrado nas pequenas sociedades posicionais que demarcam uma grande equipa das outras. Ferramentas que alicerçam o essencial, mas que não podem tolher a criatividade. Porque no fim, como lembra o espanhol, tomar decisões não é um direito, mas sim uma exigência.
Ensinar futebol é isto. Perverte, instrui a mente, deixando espaço para que ela decida por ela própria.
António Borges


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