Paulinho, Geraldes, e as cadeiras de Engenharia Civil
Se a solidez e alicerces de um edifício estão nas suas bases
inoxidáveis à acção de quem o procura decompor, com que objectivo se edifica
tamanha
Se no D.Afonso Henriques - e no Dragão - a maquinização do
sector recuado foi gritantemente ineficaz, na Vila das Aves esses erros
nasceram por erros individuais dos dois centrais do Desportivo das Aves. Tanto
num caso, como no outro, a inoperância resultou em resultados desnivelados, que
só a pontaria de William, em Guimarães, conseguiu atenuar. Nos dois primeiros
casos, a falta de noção posicional, que interliga as duas primeiras fases do
jogo (construção e criação), foram negligenciadas pela tríade (guarda-redes -
laterais - centrais) responsável por esse momento tão importante para a
segurança de uma equipa. Se o objectivo teórico passava por deixar belos
registos quantitativos da capacidade definidora das suas equipas, de certeza
que a negativa às cadeiras de 'Desenho de Construção' e 'Física das
Construções' fará estes três técnicos rever prioridades.
No pólo oposto aos erros de engenharia civil, as
obras-de-arte em Portimão e nos Arcos, Vila do Conde, eclipsaram qualquer
análise fria e calculista. Emergiu Paulinho, médio vistoso do Portimonense, que
já havia sido falado para o FC Porto, num interesse que terá esbarrado na
proibitiva cláusula de rescisão (não é a mesma coisa dar 10 milhões por um
local ou por um 'estrangeiro', infelizmente). Se tivesse que traçar um
comparativo entre o brasileiro e um jogador do passado recente dos nossos
relvados, apontaria o nome de Deco. A forma como antevê o que se vai passar
antes que a bola lhe toque o pé para, depois, num gesto repentino, tirar o
adversário do caminho com uma recepção orientada mortífera, em tudo me recordam
o ex-internacional português. Posso estar muito enganado, mas as sensações que
me passou é a de estarmos na presença de uma das futuras figuras desta edição
da Liga. Nos Arcos, mais do mesmo da autoria de Francisco Geraldes. Com uma
semana a trabalhar às ordens de Miguel Cardoso, Geraldes fez jus à excepção
deontológica máxima de Guardiola, que preza o jogador inteligente e as
repercussões que a previsível falta de rotina deste com os companheiros
deixariam antever na manobra colectiva. Geraldes está para o Rio Ave como
Bernardo Silva esteve para o Manchester City com o mesmo tempo de preparação
conjunta. Porque as ideias, como o próprio sublinhou numa publicação recente,
"são à prova de bala".
ANTÓNIO BORGES


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